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Babás, cuidadoras de idosos, enfermeiras, professoras… a gente até se acostuma a falar essas palavras no feminino. Já pensou que existem algumas profissões que parecem ser ocupadas por mulheres? Bora refletir sobre isso.

Já parou para pensar que existem profissões que parecem ser femininas só porque vemos poucos homens nelas? Faça o seguinte exercício. Quantas pessoas do sexo masculino você conhece que ocupam os seguintes cargos: professor do ensino básico, assistente social, enfermeiro, pediatra, cuidador de idosos, e por aí vai. Teve dificuldades de pensar em pessoas? Para algumas dessas profissões você teve inclusive a dificuldade de pronunciar no masculino? Eu também.

A questão aqui não é falar que mulheres não deveriam exercer essas profissões. As mulheres podem e devem trabalhar com o que desejarem, o convite aqui é tentar entender o que está por trás dessa crença de que existem as profissões certas para mulheres e, também, para os homens.

Por que acreditamos que existe trabalho de homem e de mulher?

O trabalho não é só trabalho, é uma esfera da vida social que reflete a nossa cultura e as nossas crenças. E cada vez mais pessoas buscam ter no trabalho mais do que um ganho monetário, mas propósito e até sentido para a vida.

Essa espécie de divisão do trabalho feminino e masculino se baseia em crenças de que existem as habilidades ligadas ao gênero, que tornam homens mais aptos ao trabalho masculino e mulheres mais aptas ao trabalho feminino. Entendendo o trabalho masculino como braçal, técnico, matemático, exato. Já o feminino é compreendido como o trabalho que exige cuidado, delicadeza e trato com as pessoas.

Apesar de termos conquistado mudanças significativas quanto ao papel da mulher com a evolução da sociedade e com a maior emancipação das mulheres, ainda é comum associarmos algumas profissões diretamente ao feminino.

Questões sociais relacionam o cuidado às mulheres, como se isso fosse um traço biológico. O artigo das pesquisadoras Olegna Guedes e Michelli Daros diz: “As atividades que derivam do ato de cuidar tendem a ser atribuídas às mulheres e naturalizadas de forma a aparecerem como exclusivas e constitutivas da condição feminina. Ancorado neste senso moral, valores como altruísmo e atribuições como a maternagem”.

Ou seja, esperamos que as mulheres deem conta dessa dupla jornada de trabalho, uma fora de casa e uma cuidando das pessoas em casa: filhos, maridos, idosos, etc. Além disso, esperamos que essas mulheres vinculem-se a profissões relacionadas ao ato de cuidar, como se fosse algo da natureza feminina. 

Por trás disso está a crença de que a mulher nasceu para maternar e, em outras palavras, cuidar. Mas na realidade, não é bem assim.

A mulher e o trabalho “feminino”

À medida em que as mulheres foram entrando no mercado de trabalho assalariado com a evolução dos direitos femininos, elas foram ocupando profissões específicas que, até hoje, são majoritariamente femininas. Por exemplo: limpeza, costureiras, bordadeiras… todas elas nutrindo alguma relação com as atividades domésticas.

E não é de se estranhar que com o tempo não tenha mudado muita coisa. Um levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que, em 2019, as mulheres se dedicavam quase o dobro do tempo dos homens ao trabalho doméstico – 21,4 horas, enquanto os homens se dedicam às mesmas atividades por 11 horas semanais. 

Este perfil tem mudado desde o século XX com as transformações demográficas do país que também alteraram os padrões sociais da mulher, permitindo acesso à educação, às universidades e, consequentemente, a postos de trabalhos que exigem mais técnica.

Por outro lado, quando olhamos principalmente para as camadas mais pobres da sociedade que têm menos acesso a recursos como educação, ainda vemos grande parte das mulheres ligadas às profissões domésticas e de cuidado com outras pessoas.

Mães e mercado de trabalho

Outra discrepância é quando comparamos a empregabilidade de homens e mulheres com filhos pequenos. Ainda segundo o IBGE, enquanto 89,2% dos homens com filhos até 3 anos de idade estão empregados; apenas 62,6% das mães brancas de crianças nessa faixa etária estão empregadas. Já entre as mães negras, o percentual é de 50%.

Ou seja, enquanto parece desejável que o homem trabalhador tenha filhos, o mesmo não se reflete para as mulheres, especialmente, para as mulheres negras.

Vale ressaltar aqui também o peso da culpa, que por muitas vezes também faz com que muitas mulheres acabem desistindo de suas carreiras para se dedicarem a maternagem.

Conclusão

A reflexão final que eu quero deixar não é sobre onde cabem ou não as mulheres. Muitas mulheres sentem-se realizadas no cuidado dos lares e das famílias, outras em posições consideradas como tradicionalmente femininas – e tá tudo bem.

O ponto é entender que não existem fatos que comprovem que homens estão destinados a certas atividades enquanto mulheres desempenham melhor outras. Ambos os gêneros podem desempenhar bem qualquer atividade. Isso não depende do nosso gênero, mas das nossas capacidades, talentos, motivações e dedicação.

E vale uma provocação. Se as mulheres são tão boas assim em cuidar, por que tão poucas ocupam cargos de liderança hoje? Por que ao mesmo tempo em que empresas usam do empoderamento feminino como marketing, mulheres precisam mimetizar comportamentos masculinos para serem vistas nessas mesmas empresas? Não faz sentido!

Então, que tal olharmos para o mundo e pro mercado de uma forma mais crítica e entender que a mulher não precisa assumir somente as camadas maternais que foram colocadas nela como naturais e entender que os homens também são capazes de cuidar.

Isso não é biologia, é escolha e ação. Todos nós temos energias masculinas e femininas e estamos em processo de transformação.

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